Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Uma história por acabar... Parte 5

5

 

Ás vezes ainda se lembrava do acidente. As correntes obtusas da memória tomavam o controlo quando ele o perdia. E ele regressava atrás na linha temporal, precisamente ao ponto que queria apagar. O seu último contacto com o mundo. A conclusão do seu auto-encarceramento. Não fora ele que fizera o trovão.

Aquele miúdo...

Também não tinha culpa. Dizem que um relampago não cai duas vezes no mesmo sítio. Mas infelizmente a primeira pode ser suficiente. E o miúdo quase morria. Ele salvara-o, claro, que mais podia fazer? Mas fora crucificado, atacado, escarnecido. A cegueira do preconceito não deixava ver para além da primeira impressão...

Ele, como um fantasma, com um saco de pinhas na mão esquerda. Baixado sobre o miúdo com as roupas rasgadas e marcas de queimaduras.

A chuva a cair e a diluir qualquer compaixão em raiva.

Fora! Animal! Fantasma! Maldito! Fora!

 Nem a água da chuva que escorria em fluxo e refluxo na sua face fazia passar a ideia de que ele chorava.

Ele só dizia "o menino", "o menino".

E eles grunhiam, arfavam. Maldito!

Ele só sofria. O Menino...

Entrou em casa, naquela casa, para não tornar a ter contacto com outras pessoas excepto a sua mãe. O que ele não sabe é que o limite da crueldade das gentes estava para lá do que ele era capaz de imaginar... O menino sobreviveu, mas nunca se livrou de ser estigmatizado, e nunca se livrou da sua alcunha. Ficou para sempre "O Menino", mesmo pai era "O Menino". Só ele defendia o "Homem do Saco", logo, para todos os outros, só ele estava errado e, portanto, não era de confiança. Um instante. Um raio. Um acaso da Natureza pseudo-aleatória.

Duas vidas.

Votadas ao ostracismo.

Parcial.

E completo.

Dois fios da intricada e embricada teia do Destino.

Separados.

Em direcções opostas.

Perenemente entrelaçados.

Tentando inconscientemente encontrar-se.

Encontrando-se talvez só depois de desistirem...

Mas ninguém disse que seria fácil.

 

E pronto, mais um cheirinho... Gostei das reacções ao anterior, são o meu incentivo...

Venham mais..

Já sabem..

 

REAJAM!

 

Um abraço,

Miguel

 

Um abraço,

Miguel

Rabisco da autoria de Melancholic Soul às 17:22
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